Crise e luta de classes no terminal da Bloomberg.com

Publicado em 3 de agosto de 2009 por José Martins

ANO XXIII. nº 985; 2ª semana de Agosto/2009

Os dados atualmente disponíveis são suficientes para se concluir sobre o fim do atual período de crise global? É uma pergunta tão difícil quanto a da diferença entre uma classe produtiva e outra consumidora. A resposta, nos dois casos, exige muito mais do que uma simples opinião de torcedor.

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Ao contrário da maioria dos economistas a agência Bloomberg de notícias econômicas – a maior do mundo no ramo – não tem nenhum receio de afirmar que a exploração dos operários é fundamental para a salvação do capital. Aumentar a exploração para elevar o lucro. É o que a categorizada depoente diz com todas as letras desde o primeiro parágrafo de uma ilustrativa matéria em que ela resume com certa satisfação a escalada da produtividade na economia de ponta do sistema: “A produtividade dos operários dos Estados Unidos cresceu no segundo trimestre no ritmo mais rápido dos últimos seis anos como resultado do corte pelos empregadores na folha de pagamentos para elevar os lucros”.

Outras importantes comprovações: “A produtividade, que mede quanto um empregado produz por hora trabalhada, subiu a uma taxa anual de 6.4 por cento, mais que o previsto, após um ganho de 0.3 por cento no trimestre anterior, conforme dados do Departamento do Trabalho divulgados hoje em Washington. Os custos do trabalho tiveram as maiores quedas dos últimos oito anos”.

Para concluir: “A economia perdeu 6.7 milhões de empregos desde o início da recessão em Dezembro de 2007. Uma menor força de trabalho estancou a queda dos lucros. No segundo trimestre, 72.2 por cento das empresas do S&P 500 atingiram suas metas previstas de lucros, pouco abaixo dos 72.3% por cento alcançados cinco anos atrás, a maior taxa desde 1993, pelo menos, como mostram dados compilados pela Bloomberg e divulgados ontem.” 1

PRODUTIVA OU CONSUMIDORA? – Uma coisa pouco comum na análise do movimento real de um ciclo econômico: a Bloomberg está dizendo claramente que a classe operária existe no regime capitalista para produzir capital e não para consumir mercadorias. O que dizer então daqueles ideólogos do capital (e das classes médias) que lamentam o desemprego e a diminuição dos salários dos trabalhadores porque isso, segundo eles, diminuiria o consumo na economia, aprofundaria a crise e, logicamente, rebaixaria os lucros dos pobres capitalistas?

Confundir a função histórica da classe operária de produzir capital com a de consumir mercadorias das classes médias improdutivas (assalariada ou não) sempre foi uma peça chave do discurso colaboracionista para demonstrar que os interesses dos trabalhadores coincidem com os dos capitalistas, principalmente no momento da crise.

Mas o que vemos na insuspeita descrição da Bloomberg é exatamente o contrário: a única maneira de se interromper a queda da taxa de lucro – e, conseqüentemente, a crise geral – é aumentar ao máximo a taxa de exploração (produtividade) da classe operária. Como? Aumentando ao máximo o desemprego, o quanto um empregado produz por hora trabalhada gratuitamente para o capitalista e, simultaneamente, reduzindo também ao máximo o custo unitário do trabalho, quer dizer, o capital variável, aquela parte do valor produzido e destinado à reprodução pura e simples da força de trabalho.

A BOLA CONTINUA ROLANDO – Essa criteriosa descrição da Bloomberg de como o exército industrial de reserva está sendo reformatado pelos capitalistas na economia reguladora do sistema global para recuperar seus lucros e escapar da crise geral ilustra muito bem como a luta de classes determina a recuperação ou a eliminação do capital. O mais importante, neste momento, é que nos encontramos exatamente em mais um ponto desta luta que decide o desenlace do atual período de crise: crise parcial ou crise geral? Recessão ou depressão?

A descrição apresentada até agora para os dados da produtividade no 2º Trimestre é suficiente para se afirmar que os capitalistas já venceram mais essa batalha? O que você diria para nossos leitores? Quem se habilita a pensar por si mesmo e responder a esta intrincada questão? É o que continuaremos tentando a seguir, enfrentando mais de perto esses fatos e números que dançam à nossa frente como fogo sagrado a desafiar que seja corretamente decifrado.

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1 Bloomberg. com – “US Economy: Worker Productivity Surges and Labor Costs Drop” – 11/agosto/2009.

Comentários (1)

 

  1. admin disse:

    No Brasil, se tivéssemos uma boa direção a crise não teria passado de uma marolinha.

    O BC levou 6 meses para perceber que o Brasil tinha desacelerado e mesmo assim as medidas tomadas foram insuficiente. O crédito aqui secou em outubro de 2008 e o BC só baixou os juros em 2009.

    Liberou compulsórios de um lado e do outro fez operações compromissadas com os bancos pagando a SELIC para captar excesso de dinheiro que ele (o BC) acabara de jogar no mercado.

    Quem atuou mesmo foi o Ministério da Fazenda.

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