Vícios Privados, Déficits Públicos
Publicado em 17 de agosto de 2009 por José Martins
ANO XXIII. nº 987; 4ª semana de Agosto/2009.
Tem economista de grosso calibre que ainda aposta em forte recaída da economia reguladora do sistema global ainda neste ano. Como o professor Martin Feldstein, da Universidade de Harvard, EUA, que declarou, durante aquele encontro que falamos na semana passada dos dirigentes dos bancos centrais das principais economias, em Jackson Holle, EUA: “A economia dos Estados Unidos ainda está muito fraca e não está nem um pouco claro que a melhora observada recentemente seja o começo de um crescimento sustentado. Existe o sério perigo que na virada deste para o próximo ano assistiremos a economia caindo novamente.”1
O que atormenta Mr. Feldstein? O mesmo que os economistas mais sérios dos EUA: a complicadíssima situação do sistema financeiro global. Começando pelos ativos podres dos bancos privados dos EUA e, por extensão, da capacidade do Departamento do Tesouro continuar segurando sua barra por muito tempo mais, com o risco de se jogar as contas públicas da maior economia do planeta nas profundezas do inferno de uma impensável divida estatal e, no meio do caminho, falência do crédito público.
CAPITAL TÓXICO – O apodrecimento do crédito privado, resultado da superprodução de capital industrial, sempre foi a razão direta do apodrecimento do crédito público. Sempre foi desde que o capital existe. A incapacidade de a burguesia privada administrar a produção social antecipa a crise do Estado. Isso só aparece em períodos de crise periódica de superprodução de capital: a burguesia privada, base social predominante do regime capitalista, só pode se livrar das labaredas da crise que ela mesma provoca, periodicamente, assaltando os recursos públicos centralizados na superestrutura militarizada do Estado democrático, conquistado historicamente do antigo regime e reformado pela própria burguesia para ser o comitê central de defesa dos seus negócios e dos seus interesses privados.
São justamente esses negócios e vícios privados que voltam a ficar seriamente ameaçados na atual quadratura do ciclo: “Os Estados Unidos acrescentaram mais 111 bancos na lista de „bancos problemáticos‟ no segundo trimestre, crescimento de 36% que elevou o grupo ao nível mais alto em 15 anos. Um total de 416 bancos com ativos somados de US$ 299.8 bilhões quebraram até agora e foram socorridos pelo Federal Deposit Insurance Corp.s (FDIC) agencia federal que supervisiona o sistema… Os órgãos reguladores estatizaram 81 bancos neste ano, incluindo Guaranty Financial Group Inc., no Texas, e Colonial BancGroup Inc., no Alabama. Vinte e quatro bancos quebram no segundo trimestre com a aceleração do ritmo de calotes, resultado da pior crise financeira desde a Grande Depressão.” 2
No dia 29 agosto a mesma Bloomberg noticiava que mais três bancos privados foram fechados e estatizados, subindo o número para 84 bancos em 2009. A maioria das 8195 empresas bancárias dos EUA continua tendo prejuízo em suas operações de empréstimos ao setor privado. Muitas dessas perdas tiveram que ser cobertas com dinheiro do governo (fundos federais). Dificilmente estes bancos voltarão a ter lucros enquanto a economia real não voltar a crescer aceleradamente, e, não menos importante, a totalidade do sistema bancário não limpar seus balanços dos “ativos tóxicos” acumulados no recente período de expansão (2003-2007). Crescimento acelerado e limpeza dos balanços são duas coisas totalmente ligadas; até agora uma é tão incerta quanto a outra.
TERRITÓRIO DESCONHECIDO – Se a crise do crédito privado não for interrompida imediatamente, ela dará lugar a outra bem pior, a crise do crédito público e, por extensão, o derretimento da moeda nacional (dólar), que, por sinal, exerce também a função de moeda de reserva internacional.
É isso que apavora os capitalistas, como esta outra celebridade do sistema global, o mega-capitalista estadunidense Warren Buffet. Em recente artigo no jornal The New York Times3, ele escreve que os EUA devem revisar a prescrição da “enorme dosagem de medicina monetária” injetada no sistema financeiro privado nos últimos doze meses e que agora ameaça com a falência múltipla dos órgãos a maior economia mundial e sua estratégica moeda. Em suas próprias palavras: “O oceano de dinheiro estatal socorreu o sistema financeiro privado e agora a economia encontra-se fora da UTI e em um ritmo lento de recuperação. Mas enormes dosagens de medicina monetária continuam a ser ministradas e logo precisaremos de um acordo sobre seus efeitos colaterais. Por enquanto, a maioria daqueles efeitos está invisível e pode ainda permanecer latente por algum tempo. Mas, o seu potencial de perigo pode ser muito mais dilacerante do que a da própria crise financeira”. Os primeiros sinais desta nova crise muito mais letal que a primeira (privada) já são visíveis na evolução do déficit público dos EUA. Segundo dados do Departamento do Tesouro, o excesso de gastos sobre as receitas do governo, só no mês de Julho passado, foi de US$ 180.7 bilhões (comparado com o déficit de US$ 102.8 bilhões em julho/2008). O Tesouro informa também que em Julho/2009 o governo gastou mais que em qualquer outro mês da história dos EUA . Não é um fato a ser menosprezado na análise do que vem pela frente.
É uma situação das finanças públicas que pode ficar totalmente descontrolada que leva Mr. Buffet a declarar que, em termos fiscais, os capitalistas encontram-se em um território desconhecido. Para chegar a essa conclusão ele verifica outras sugestivas relações numéricas da historiografia do capital: “Para entender essa ameaça, temos que observar onde estamos historicamente. Se você deixa de lado os impactos das guerras nos anos de 1942 a 1946, o maior déficit público incorrido desde 1920 foi de 6% do Produto Interno Bruto (PIB). Neste ano fiscal, entretanto, o déficit deverá alcançar cerca de 13 por cento do PIB. Mais que o dobro que o recorde dos tempos de paz. Em dólares, isso equivale a estonteantes US$ 1.8 trilhões. Em termos fiscais, estamos em um território desconhecido”.
E você o que acha? Será que está havendo um certo exagero na avaliação (na qual nos incluímos) destes números da situação fiscal dos EUA? Isso não é importante, logo passa e o capital volta aos trilhos sem grandes sobressaltos? Ou será que esses fortes indícios de descontrole das redes estatais de proteção do capital e de combate aos vícios privados são particularmente importantes e podem levar a economia de ponta do sistema à falência financeira e monetária do mercado mundial? Para facilitar a resposta, no próximo boletim incluiremos outros números (oficiais) a respeito. Até lá!
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1 Bloomberg News – “Bernanke Says Global Economy Emerging From Recession” – 21/agosto/2009.
2 Bloomberg News – “Problem” Banks Rise to 15-Year Hight on Bad Loans, FDIC Says” – 27/agosto/2009.
3 Warren Buffett – “The Greenback Effect” – The New York Times, 18/agosto/2009.
Comentários (1)
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A Embraer massacra metalúrgicos e recebe mais dinheiro do governo
Já reparou a cobertura da grande mídia sobre a saída de Torós do BC? Os caras quase conseguiram quebrar o país no final de 2008 e saem do BC com pinta de heróis.
A TV Globo e a CBN limitou-se a informar que Torós pediu demissão após a entrevista.
Os jornalões falam da entrevista, mostrando com destaques as falas de Torós. No G1, a manchete é “Ação contra crise aproximou BC da economia real, diz Torós”
Estão pintando o cara como herói. E logo a mídia e a oposição que sempre buscaram o menor deslize para promover o maior escândalo. A Globo não vai pedir uma CPI?