RECUPERAÇÃO COM DEFLAÇÃO NÃO ROLA
Publicado em 20 de dezembro de 2009 por José Martins
Complicada essa recuperação da economia mundial. As condições básicas para um novo período de expansão – produção, produtividade, desemprego – continuam favoráveis para o capital. Todos os dados publicados na última semana nos EUA comprovam esse fato. Repeti-los aqui seria apenas um nauseante (e desnecessário) exercício de autoflagelação.
Entretanto, se as condições produtivas de capital de sanguinária elevação da exploração da classe operária mundial são retomadas em pressão máxima, as condições da circulação – dívidas públicas, crédito e bancos privados, comércio internacional, mercado de divisas, etc. – ainda não saíram da UTI. O sistema financeiro mundial continua com a bola murcha. A síntese de todos esses problemas arteriais capitalistas aparece na forma perigosíssima de uma doença chamada deflação, uma queda persistente dos preços industriais e agrícolas nas principais economias.
DECIFRA-ME OU TE DEVORO – De que adianta uma forte tendência à recuperação das condições básicas da valorização do capital se os preços teimam em continuar deprimidos? Enquanto a pressão arterial do sistema circulatório capitalista se mantiver nos baixos níveis atuais não haverá recuperação efetiva da economia. Ao contrário. A coisa é mais perigosa do parece. O busílis da questão é que deflação nunca anda sozinha. Ela é irmã siamesa da depressão. Por isso, a atual recuperação da economia mundial aparece como um enigma difícil de ser decifrado pelos economistas.
Nas retomadas das crises mais recentes nos EUA e União Européia a deflação era pouco preocupante. Ainda se falava mais do perigo da inflação monetária, uma doença macroeconômica não letal. Agora, apesar dos gastos assombrosos (e conseqüentes dívidas e déficits públicos) dos governos das economias dominantes, para salvar os banqueiros e capitalistas em geral, a inflação é cada vez mais mansa. É a deflação que está cada vez mais braba.
Por isso a cautela dos principais bancos centrais do mundo, a começar pelo Federal Reserve (Fed, dos Estados Unidos) em não afastar a taxa básica de juros nem um milímetro do território das taxas superzero. E parece que essa política não será abandonada tão cedo: “O Federal Reserve repetiu sua intenção de manter as taxas de juro ‘excepcionalmente baixas’ por um ‘longo período’. Seu relatório explica que ‘os empresários ainda estão cortando investimentos fixos e permanecem relutantes em aumentar a folha de pagamentos’. Relatam também que as baixas taxas de juro são relacionadas à ‘baixa taxa de utilização dos recursos e tendência de inflação deprimida”
O problema atual não é mais a inflação monetária provocada pelo desequilíbrio das contas públicas. É a deflação dos preços provocada pela queda da taxa de lucro a ser realizada na venda das mercadorias. É um problema de circulação do capital que se origina na produção. Neste final de ciclo periódico de superprodução e queda da taxa média de lucro, a deflação aparece com maior clareza e generalização no mercado mundial. A política de Ben Bernanke e dos seus parceiros do Fed é de reinflacionar a economia estadunidense. Lutar contra a deflação.
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