(boletins nº 1008/1009; ano 24; 4ª sem. fev. e 1ª mar./2010) UMA RECUPERAÇÃO SEM BRILHO

Publicado em 19 de março de 2010 por admin

Por enquanto, parece que tanto o desemprego dos trabalhadores quanto o lucro dos capitalistas ainda não alcançaram taxas suficientemente elevadas que estimulem o “espírito animal” dos capitalistas de que falava Keynes – expressão que os economistas acham tão espirituosa e graciosa – o que os levaria a uma nova onda mundial de investimentos e ampliação da capacidade instalada.                                                            JOSÉ MARTINS.

Nem tudo que reluz é ouro. A economia mundial, por exemplo, continua em firme trajetória de recuperação da mais pesada crise desde os anos 1930. É o que mostram os últimos relatórios sobre a produção industrial dos EUA, reguladora do sistema. Tudo sobe: recordes de produção de valor, de mais-valia e de produtividade (exploração) da classe operária. Mas ainda existem misteriosos problemas no meio deste sucesso capitalista. Vejamos a coisa nos detalhes.

 No dia 4 de fevereiro último o Departamento do Trabalho norte americano publicou o esperado relatório da produtividade e custos, referente ao 4º trimestre e médias anuais de 2009[1]. Para o último trimestre de 2009, confirmou a tendência já detectada nos dois trimestres anteriores: fortíssimo aumento de 7,8% da produtividade da força de trabalho (produto por hora) no setor das manufaturas – bens duráveis e não-duráveis.

No mesmo período, a produção no setor cresceu 6,1% e as horas trabalhadas diminuíram 1,6%. Isso refletiu também em uma brutal redução de 7,4% do custo unitário da força de trabalho. Esse é o melhor indicador (embora grosseiro, como tudo na estatística) para se acompanhar a evolução da taxa de mais-valia na economia como um todo. Essa tendência já tinha sido detectada no 2º trimestre (- 0,2%) e no 3º trimestre (-7,0%).[somenteassinantes]

PARA SAIR DO BURACO – Essas variações trimestrais assumem sua verdadeira importância quando comparadas com as médias do ano de 2009 como um todo, quando se alcançou o fundo do poço do recente período de crise: produtividade (1,3); produção (-11,0%); horas trabalhadas (- 12,1%) e custo unitário da força de trabalho (3,5). Os recordes de exploração dos dois últimos trimestres do ano passado foram a resposta dos capitalistas ao gigantesco choque cíclico ocorrido em 2008 e 2009. Em resumo, se não tivesse ocorrido nos dois últimos trimestres de 2009 o brutal aprofundamento da exploração da classe operária mundial, quer dizer, da produtividade da força de trabalho, processo mostrado com toda clareza neste mais recente relatório do Departamento do Trabalho, pode-se afirmar, com toda certeza, que a economia capitalista estaria agora mergulhada em uma crise geral, catastrófica, muitíssimo mais pesada que a Grande Depressão dos anos 1930.

Portanto, para se avaliar melhor a evolução deste novo período de expansão do capital global há que se levar em conta a relação entre o tamanho do buraco cavado pela superprodução de capital no último período de crise (2009/2009), de um lado, e de outro as taxas recordes de produção e produtividade ocorridas nos dois últimos trimestres de 2009. São duas coisas organicamente proporcionais, com a primeira (tamanho da crise) determinando a segunda (exploração da classe trabalhadora).

A pergunta mais importante a ser respondida neste início de Março de 2010 é a seguinte: o aumento ocorrido na taxa de mais-valia até agora já é suficiente para os capitalistas alcançarem uma taxa média de lucro pelo menos aproximada à do período de expansão do ciclo anterior (2003/2007)? Isso é importante porque só assim eles retomariam os novos investimentos de ampliação da base instalada anterior. A nova taxa de acumulação é dependente da velha taxa de lucro.

PRODUÇÃO SEM ACUMULAÇÃO? – Deve-se lembrar que essa recuperação de uma adequada taxa média de lucro em sucessivos ciclos é dependente, por seu lado, de uma simultânea elevação da taxa de mais-valia, quer dizer, da produtividade e exploração da classe operária mundial. Para se ressuscitar a velha e estiolada taxa de lucro, exige-se uma nova e redobrada taxa de mais-valia.

Deve-se lembrar, também, que essa restauração periódica do capital exige, em primeiro lugar, a reformatação, também periódica, do exército industrial de reserva mundial. Isso ocorre nos períodos de crise e de recuperação de um novo período de expansão. É claro que isso não é nem um pouco neutro em termos sociais e de governabilidade do Estado burguês. Trata-se de um processo de reacomodação capitalista de conseqüências imprevisíveis na administração da luta de classes.

O indicador mais aproximado (embora, também, muito grosseiro) desta reformatação do exército industrial de reserva é a taxa de desemprego da força de trabalho. O desemprego da força de trabalho deve, então, se elevar a um nível suficiente para se aumentar a produtividade (exploração) a um novo nível que recupere a taxa de lucro média que levaria os capitalistas a empreenderem um novo período de ampliação da capacidade instalada e, portanto, da taxa de acumulação do capital.

Atualmente, tudo indica que nem a taxa de desemprego, nem a taxa de acumulação, deram mostras de já terem alcançado os patamares de sustentação de uma nova recuperação cíclica. A Bloomberg.com noticia o seguinte, no dia 1º de março de 2009, antecipando o relatório mensal do Departamento do Trabalho sobre a Situação do Emprego nos EUA, a ser divulgado dia 5 de Março: “os empregadores [employers] em Fevereiro provavelmente reduziram 50.000 empregos depois de cortarem 20.000 no mês anterior, segundo previsões encomendadas pela Bloomberg a um grupo de economistas, antecipando à divulgação do relatório do Departamento do Trabalho em 05 de Março. O desemprego provavelmente subiu dos 9.7% de Janeiro para 9.8% em Fevereiro, de acordo com o levantamento.” [2]

ESPÍRITO ANIMAL – O desemprego da força de trabalho ocorre simultaneamente ao desemprego do capital. Se a Bloomberg fala do primeiro o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) fala do segundo. No seu mais recente relatório mensal da Produção Industrial e Utilização da Capacidade, além de reportar novos indicadores de expansão da produção em Janeiro 2009, o Fed faz uma tímida e misteriosa nota: “Os números do presente relatório incluem estimativas preliminares da capacidade industrial para 2010. A capacidade industrial total projeta uma queda de 0.8% neste ano, depois de cair 0.9% em 2009. A capacidade das Manufaturas deve declinar 1.0% em 2010, na seqüência de uma queda de 1.2% no ano passado.” [3]

Em outras palavras, a acumulação do capital está travada na maior potencia econômica do globo. Pior, segundo as próprias palavras do Fed, está em claro declínio. O resto do mundo só pode acompanhar essa determinação da economia reguladora do sistema. Ninguém fica fora da estagnação.

É claro que essa tendência pode ser revertida com a forte expansão da produção e produtividade. O Fed informa que fará uma reavaliação em Julho próximo.  Mas, pelo menos até agora, parece que tanto o desemprego dos trabalhadores quanto o lucro das empresas ainda estão longe de taxas que estimulem o “espírito animal” dos capitalistas de que falava Keynes – expressão que os economistas acham tão espirituosa e graciosa – o que poderia levá-los a uma nova onda de investimentos capaz de ampliar a capacidade instalada da economia mundial.

Enquanto essa restauração periódica dos mortos comandando os vivos não acontece, é geral a onda de lamentações (e de certo desânimo) dos capitalistas de que tanto o desemprego do trabalho quanto a dívida pública das maiores economias não param de aumentar. São lagrimas de crocodilo. E se explicam por razões muito práticas: do mesmo modo que o aumento descontrolado do desemprego da força de trabalho, como salientado anteriormente, leva a um processo imprevisível de desorganização da administração da luta de classes, o aumento não menos descontrolado do desemprego do capital (e, conseqüentemente, da dívida pública) leva diretamente ao enfraquecimento e ingovernabilidade do Estado.

Isso é realmente muito grave para a sobrevivência do regime, principalmente quando ocorre de maneira mais intensa no coração do sistema, nas principais praças financeiras do mundo. O que os capitalistas procuram esconder é que foram eles mesmos que alimentaram essa situação. Ao salvar suas empresas industriais e seu capital fictício, rentista, etc., com oceanos de recursos e endividamento públicos, qual é a primeira coisa que as empresas em geral fazem para a “reestruturação” e a recuperação dos lucros? Mandar para o olho da rua de 10 a 20% da sua força de trabalho. Quer dizer, o que eles tanto lamentam que esteja acontecendo é obra deles mesmos para salvar sua própria pele. O resto não passa de enrolação.[/somenteassinantes]


[1] BLS Bureau of Labor Statistics – Productivity and Costs, Fourth Quarter and annual Averages 2009, Preliminary – Washington, 4 fevereiro 2010.

[2] Bloomberg. com – “US Manufacturing Probably Grew For Seventh Month” – 01/março/2009. 

[3] Federal Reserve – “Industrial Production and Capacity Utilization” – Washington, 17/Fevereiro/2010

Comentários (1)

 

  1. Enquanto isso aqui no Brasil a economia ameça crescer um pouco o BC vem e dá uma paulada nos juros. Eles querem garantir a parte da banca a qualquer custo.

    Recomendo a leitura do artigo Nassif:

    O círculo vicioso do Copom

    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/18/o-circulo-vicioso-do-copom/

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